SOBRE LÁGRIMAS

Se quiser chorar
Choras!
Ao âmago da existência da vida
Do fardo, que carregas dia a dia.

Derrama sob o envelhecido rosto
O que o tempo te deixou.
E deixa, na superfície da pele
As águas, dos olhos da dor.

Ah! Apenas tu sabes o que passou.
Se viveu, se amou...
Se traiu, se vadiou.

Apenas teu corpo sabe o sofrido
O vivido e o não vivido
O que ficou e o que foi esquecido

E se os olhos
Fizerem o pedido de lágrimas,
Deixe-as rolar.
Liberte as pálpebras
Libere a fonte
É só respirar.
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CÂNTICO


De tanto a morte falava.
Que da sorte, já não sabia.
Em cada flor que plantava.
Uma criança nascia.

Como em canto, um cronista.
O sol, ela já não via.
D’alma fria, infiel, despida...
Aos cânticos, duma severa vida.

De fardos passava sua sina.
Em prantos, chorando, essa menina.
Mas não sabia, que de longe via
Da esperança, o destino usufruía.

E em tantos cânticos, cantados, esta menina
Sobre a lua, que iluminava, clara e nua.
Era tua, uma escultura.
Que vivia nua, assim: despida pela rua.

Não lhe bastava essa mensagem.
Uma longa, curta metragem.
Que espelhava em uma barragem.
E não mais essa mensagem, uma longa e curta metragem.

Da vida lhe restara uma passagem.
Esta sem nome, sem identidade.
E esse seu espírito de liberdade.
Não sabia se mentia, ou dizia a verdade.

Esta menina, escrevia nas esquinas.
E morria de saudade
Uma saudade sem culpa. Ansiedade.
Dessas saudades ocultas, insanidade.

- Mas que menina chorosa!
Disse a Santa.
Que do céu a olhara, pálida.
Distante de qualquer instância. Espanta.

- Não me culpe, que de chorar vivo a vida...
Uma vida sem chão. Não fui escolhida.
Restou a solidão e a saudade esquecida
Numa solidez que me passa... Vadia.

- Eu era jovem não sabia.
- Que de saudade morreria.
- Pensei que bastaria.
- Amar sem ser esquecida.

E a santa refletia
A triste história de sua vida
E não sabia responder
Pois de saudade, sofreria.

Numa dessas causa foi
Estava a menina ainda a esperar
Uma resposta da Santa
Que também se pusera a chorar.

- Minha linda menininha
- Neste céu, azul em flor.
- Cheguei em causa dum amor
- Que não bastou, não brotou, não vingou.

- Suas lágrimas de escuridão
- Bravateia em mim, exatidão.
- Não fiques assim, nesta solidão.
- Um amor ainda te resta, outra paixão.

Sem temer e foi então
Que se fora sozinha, ela e o coração.
Partiu, sem dar explicação.
Segurando apenas, um terço, em sua mão.

SOBRE AS FOLHAS RASGADAS

É inestimável pensar assim,
Que em cada parte de mim
Havia um pedaço de papel rasgado
Contido, amassado.

Cada vértice de uma folha sem fim
Tinha escrito, um pouco de mim.
Em cada verbo
Um sujeito indiscreto.

Eram folhas e folhas...
Brancas, amarelas e roxas.
Escritas com caneta azul
Que pintava um oceano 
E o deixava todo nu.

E despido dos panos
Era o mar, um engano.
Dentro de cada folha
Um pedido de escolha.

Cada folha rasgada
Um pouco de mim queimava.
Cada verbo perdido
Meu corpo gritava.

Eram folha infindas
Eram partes distintas
Eram frases cruéis 
Sob aqueles papéis.
CANTARES EMEL

O sol da cantareira
Despertava emoções
Sentimentos, mais alheios
Que despreza solidões.

Foste tu, amor certeiro!
Vagabunda imensidão
Que no sorriso, um desespero
Abrindo as janelas e portas
De dois corações.

Nao dá para ser meio a meio
Aniquilando a alma da paixão
Sirvo-te por inteiro
E derramo meu mel
Em tua mão.

E de tal forma
É exagero!
Não deixar sucumbir esse desejo
De ser entregue, e te amar
Por gratidão.
HE

Eu incomodo a mim
Mesmo sem dispersões
Confundo a mim
Não interessa se amo...
Não interessa ser amado...
São as cousas da vida,
Que me deixam desinteressado.
Não há sentimento no mundo
Que me faça falar.
Nem a certeza que tenho 
DE QUE POSSO MATAR.
Mas matar a mim.
Mesmo compreendendo 
Que o único mal que faço 
É meu sufoco aguentar.


*Para alguém que se sente incomodado por si.


EXPANSÃO

Aqui não sei d'onde venho.
Sei que não para onde vou,
O sol desaparecendo.
O corpo perdendo calor.

Continuo eu cá morrendo.
Sem saber para onde vou.
Encontro no medo, um alento.
De alguém que em mim, deixou.

Mas esqueça desse tempo!
O tempo que se passou .
Vai aos poucos se perdendo
Dando sentido ao amor.
"NUM" BAR

Quando a última cerveja acabar
Ainda estarei a esperar
No mesmo que lugar que deixou
Alguém, que por ti chorou.

Eras a parte 
Da metade
Que faltava
Mas, na verdade
Não faltava
Estava ausente
Ou não estava.

Senão por um minuto
No último gole que restara
Já faltavam as palavras
As linhas escritas, apagadas.

E na mesa restava:
Um retrato partido
Rasgado e cuspido.
ENQUANTO DORMIMOS

O tempo muda distante
Passa lento,
Passa constante,
E a única certeza,
É que é certo passar.

Passa ligeiro, quem sabe
E quem não quer esperar?
Vive correndo do tempo
Do tempo que vai passar.

Vai um dia chegar o tempo
De não conseguir lembrar.
Do tempo que foi passado 
Deixado, inacabado...
E não vai ter por quem chamar.
PARTÍCULA APASSIVADORA

Se um dia eu me for
Deixe-me ir, por favor.
Teus olhos encherão de lágrimas
E eu, perderei as palavras.

Se a porta estiver aberta
Que esteja, de forma sincera.
Se o caminho no meio partir
Saberás por onde ir.

Foste a ternura mais linda e verdadeira.
Um emaranhado de ilusões, a noite inteira.
Dos Cem Sonetos de Amor* que a ti cantei
Nenhum chega perto, dessa insensatez.

E se um dia tu partir
Os Sonetos que cantei
Não terão chegado ao fim.

O meio do caminho andado
Terá início, meio e fim.
Mas um fim não esperado
De alguém, que no passado
Viverá dentro de mim.


*Referência a Pablo Neruda

TERM

Herança de poeta.

Incrivelmente como tua alma está descrita aqui, és um grande poeta, obrigada por seguir o Pequeno Pedaço de Poesia.

Kiko Simões

Não que eu me lembre do ultimo beijo,
mas lembro.
Não que eu me faça de bobo,
mas faço.
Todo sorriso é traço marcado
que anoto nesse velho diário

Toda água que cai é pranto
diverge da água o retrato
que me lembra de seu desencanto
sem molhar com a água do passado

Fina flor em seu desabrochar,
ignorada pelo teu olhar.
Fina manta pra cobrir
todo esse frio que me roubou o brio.

Vomitando todo esse sentimento
Semi oculto assim como vento.
Descontando na ponta da caneta
essa armadilha em forma de letra.

Minha herança e toda esta
sentimentalizar é tudo que resta
e fingir que nada disso me afeta,
mas pra quem sabe ler, está escrito na testa.

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